Uberlândia – Brasília – Rio – Juiz de Fora (Maio 2012)

09/05 Uberlândia

Estou fora de Juiz de Fora já alguns dias, sai na terça dia 8 rumo a Uberlândia para o prêmio Tubal Siqueira, para representar a Lupa Video que concorria em um filme em parceria com a Buena Vista Mkt Guerreiro, feito para o cliente Sudeste Automóveis.

A Festa, na noite de quarta, mostrou de fato como a publicidade da zona da mata mineira está regredindo, não pelo fato de não ter ganhado nenhum prêmio, o único troféu que voltou para a cidade foi o de destaque regional, mas pelo nítido cuidado que as agências das outras praças, principalmente a de Uberlândia, tem com a produção a execução, mas mais importante que isso, o cuidado tomado com a história que está sendo contada no filme, e ainda mais prioritário que isso, a mensuração e acompanhamento do resultado.

De fato, nota-se a preocupação das agências uberlandenses, em oposição às de Juiz de Fora, com um bom filme, com uma boa história, bem produzido, se chegar ao resultado que o cliente almeja, para isso é necessário também o investimento em pesquisa de mercado, e acompanhamento do desdobramento das peças veiculadas. Algo que realmente acredito que inexiste em Juiz de Fora.

Depois de uma festa, com fartura de bebidas e comidas de muita qualidade, mas com a música e ambiente horríveis, nem os mais animados da caravana juizforana aguentaram passar da 1 hora da manha, mas claro, o butequinho do lado do hotel ficou lotado até o amanhecer, quando fui para o aeroporto partir para capital federal.

10/05 Brasília

Brasília me deu um grande aperto no peito pela falta de uma câmera em uma cidade com tantas paisagens e grafismos na minha frente. Para curar minha angustia, me fartei de absorver cultura e conhecer pessoas.

Já atendido e acolhido pela produção do Festival de Filmes Curtíssimos, assisti às mostras competitiva nacional.

Observa-se claramente o grande número de produções independentes, feito por coletivos, grupos ou pessoas, que não aceitam passivamente injustiças do estado. Destaco três filmes que tem em comum a luta e a mobilização social:

  • A Marcha das Vadias, de Alan Schvarsberg, DF, documentário da marcha feminista em brasília, contou com ampla presença do movimento na sessão, que, antes da sessão, fizeram uma batucada e projeções nas paredes do museu.
  • Concreto Armado, Felipe Peres Calheiros, PE, uma crítica muito sensível e contundente à obra da construção do Via Mangue em Recife, de fato, Havia Mangue;
  • Por último, o detentor do meu voto, A Ditadura da Especulação, de Zé Furtado, DF, mostra a luta pela manutenção de uma reserva indígena no meio do Distrito Federal, que estava sendo destruído para criação de um bairro ecológico de luxo, esse filme de fato me emocionou, e não só a mim, pois foi ovacionado com gritos da plateia: “O Santuário, FICA!”. Infelizmente fiquei sabendo que o bairro foi construído.

Ressalto também dois filmes de ficção que merecem o meu destaque.

  • Santo de Casa, João Costa Van Hoolmeck, RJ, trata com muito bom humor de um milagreiro tentando usar seus poderes para os desafios do dia a dia.
  • Dr. Lang, Lucas Mendonça, RS, Trabalha com a metalinguagem de forma muito interessante, um Dr maluco trabalha em uma máquina para mudar a quantidade de quadros por segundos do filme, que a princípio era apenas fotos.

Acabando o festival de filmes curtíssimos, fui ao Sesc Festclown, festival de palhaços, cheguei na hora do Clownbaré. A tenda de circo colorida, em um grande gramado tomada por malabares de todos os tipos, bolas equilibradas pelo corpo, argolas e pinos para o alto, monociclos, vários tipos de artes circenses incessantes ambientavam o local.

Boas risadas com os números do cabaré, e a banda, que tinha um vocal clown, foi muito bem sucedida na missão de contagiar o público, e fazer uma festa muito bem humorada. Gostei muito do formato, e fico pensando como podemos potencializar e aplicar cabarés em Juiz de Fora, contribuir para construir a cartografia das artes cênicas no Brasil.

11/05 Brasília

Debates e discussões tomaram o dia “O processo e a importância dos espaços de produção audiovisual e sua circulação e difusão” com João Baptista Pimentel Neto – CBC e Geraldo Morais – Coalizão Pela Diversidade Cultural.

Discutiu-se com muita veemencia a necessidade de alteração no pensamento do estado, tanto da parte responsável pela educação quanto pela cultura, na mudança de um ponto fundamental nos dias de hoje, a possibilidade de se criar e distribuir audiovisual de maneira facilitada. Da boca de Geraldo Morais “assim como é impossível ensinar alguém a ler sem ensinar a escrever e vice e versa, hoje o espectador é produtor da imagem, dominamos a criação imagetica assim como a escrita.”

A segunda mesa chamada de “Projetos de realização e educação audiovisual de iniciativa pública e privada.” reuniu Fáuston da Silva (Picasso não pichava), Ana Arruda Neiva e Pablo Feitosa (União dos cineclubes DF), e Alexandre Menezes(Encruzilhada Cineclube).

A grande discussão nesse momento foi a necessidade de ao se criar programas para o audiovisual, deve-se tirar essa linguagem do patamar da sétima arte que o cinema foi posto, e coloca-lo como uma ferramenta que transversa todas as disciplinas do conhecimento, e fornecer-la, através de ações educativas, para cidadãos protagonistas utilizarem dela para modificar a relidade que estão inseridos, da maneira que bem entenderem.

Os Cineclubes tem grande potêncial para ser um local onde a experiência de ver um filme sai da tela, e vem para a realidade dos que estão presentes, sejam em forma de um show musical, ou no caso de escolas, o alvo de estudos e debates em Brasília, atividades dentro da sala de aula.

Sexta-feira, além da mostra nacional houve uma mostra competitiva internacional, e ambas reuniram mais uma vez um leque muito bom de produções. Assistindo me veio a reflexão, de que esse formato de filme curtíssimo é o formato mais conectado com o audiovisual contemporâneo.

É um grande desafio e ao mesmo tempo um exercício muito bom para o cineasta fazer filmes pequenos, nesse formato, a idéia sobrepõe a técnica, muitos filmes técnicamente falhos, cativam o público e são recebidos de forma muito calorosa.

Outra prova disso é a grande diversidade de tipos de filmes que a mostra é formada, a grande marca dos filmes desse festival é a criatividade, uma nova surpresa a cada filme, muitos tiram gargalhadas e lágrimas do público, alguns, tiram ambas.

Um outro grande benefício do formato, é que quando começa o filme, logo no início, nota-se a sua fraqueza, a tranquilidade não falta, por saber que ele durará no máximo três minutos, mas o contrário não é verdadeiro, pois os filmes bons, são bons no formato em que eles foram criados e concebidos.

Mais uma vez, a noite acabou no Festclown, o grupo Artetude com a banda Pé de Cerrado, comandou a cerimonia e fez uma festa muito animada, colcou a todos para dançar e dar muitas rizadas até a madrugada, essa noite foi de fato muito melhor que a primeira que a do dia anterior, e de fato é um formato muito rico que já está sendo replicado pelo país nos Cabarés Fora do Eixo.

12/05 Brasília – Rio – Juiz de Fora

Sábado foi o dia da mesa na qual eu fui participar “Coletivos de Cinema e Audiovisual” ao lado de Ardiley Queirós do CeiCine e de Sérgio Serapião do programa Cine-Educação. Explanamos sobre nossos trabalhos e partirmos para a troca de ideias.

As possibilidades de uma rede autônoma decentralizada e politizada é muito rica, e gerou uma série de questionamentos, tanto práticos da relação das pontas da rede com o centro, da organização local, regional e nacional.

Refletimos que essa conexão, gera uma série de conflitos, mas isso é extremamente saudável, pois através desses conflitos, trocados e amplamente discutidos que os conceitos são ressignificados. Então dessa forma podemos transformar nossas relações de trabalho, relações pessoais, relações economicas, criando um projeto de sociedade. Hoje não há como trabalhar com cultura e arte sem pensar em colaborar para a construção de um nova sociedade.

Mas o tema do encontro era de fato a educação no audiovisual, então vários questionamentos e desafios foram colocados na roda, desafios do precariado de se levar projetores para escola por exemplo, o Cine-Educação surge como uma solução para problemas levantados no dia anterior conversando sobre o programa C+C em Brasília.

Outra discussão foi a curadoria, que deve ser pensada para mostrar para o público uma caligrafia Av genuinamente brasileira, pegar crianças, jovens, criados vendo televisão, consumindo uma linguagem de filmes americanos ou novelas, linear e padronizada.

Todos os presentes compartilham do credo numa rede de cineclubismo, é nítida a falta de um mercado médio para o cinema brasileiro, que de vazão a filmes produzidos por coletivos oriundos dos becos, ao exemplo do próprio Ardiley da Ceilandia, ou do projeto Picasso Não Pichava que esteve presente no dia anterior.

Com a passagem marcada para o Rio de Janeiro no fim da tarde, ainda foi possível um belo almoço no tradicional Beirut, na companhia do Sérgio Serapião e da Josiane Osório, produtora do Festival, as conversas fluíram infinitamente, foram do Card à situação da secretaria de cultura do DF.

Ainda consegui, antes de ir para o aeroporto, comparecer e olhar com atenção a exposição no Museu Nacional, com diversas obras do Concretismo e Neo-Concretismo brasileiro, uma bela coleção que mostra um periodo muito rico das artes plásticas brasileira. Conferi também uma coleção do artista Olumello, que foi assistente de Niemyer na construção de Brasília e passou para as artes plásticas a princípio registrando a cultura negra, mas depois passou para o concretismo, desenvolvendo peças muito interessantes, em relevo, e formas simétricas coloridas bem psicodélicas.

Após esse banho de referência riquíssimo, parti direto para a lapa onde estava ocorrendo a manifestação 12M, que propôs ser a continuidade do 15M ocorrido ano passado, quando milhares de pessoas saíram as ruas da Espanha ocupando as praças e exigindo a real democracia.

A manifestação contou com a presença de vários movimentos sociais que conectados por uma ideia que transversa todas as bandeiras, a liberdade, e articulados podemos pegar de volta o que é nosso: o mundo em que vivemos. Ao ser abordado pelo De Angelis para lavar minha roupa suja no seu varal de calcinhas, escrevi na rosinha: “O mundo é nosso, Porra!!”

Parti da lapa rumo à Juiz de Fora, e consegui chegar a tempo para a primeira Noite Fora do Eixo Juiz de Fora de 2012, e presenciei o show da banda Aldan. A noite foi um sucesso, esse projeto tem dois objetivos principais, o primeiro é colocar a cidade na rota da música independente brasileira de forma regular; o segundo, abrir espaços para as bandas Juizforanas circularem pelo país. Pela primeira noite tenho certeza que ambos serão atingidos.

Cheio de estímulo para continuar a caminhar, em todo o país, por onde vou, me deparo com pessoas dispostas a protagonizar um processo de reconstrução social, de hackeamento do modus operandi do estado intolerante e incapaz de enxergar o indivíduo; Nessa luta, ninguém está sozinho, todos que estão nela, caminham junto, cada passo na sua localidade, da força para um companheiro dar mais um passo.

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