Eu ouvi Zeppelin.

São do Mato e Darandinos. Lançamento do Clipe Conselheiro.

Juiz de Fora, Estação Cultural.

Sábado, 14/04/2012.

 A primeira música que reconheci ao chegar no local foi Tom Zé. Bom sinal, tive o pressentimento de que o lugar não ia me decepcionar quanto ao som.

 Ainda frio pra abordar pessoas estranhas, aproveitei que estava na companhia de uma amiga e resolvi fazê-la de cobaia. Mas o universo,para manter sua harmonia celeste, logo puniu minha atitude com o Efeito Gravador.

“Eaê, o que tá achando da galera, do lugar mesmo, fisicamente e tal?”

“Ah, tá um ambiente bem diversificado” – quanto mais eu aproximava o gravador pra melhor pegar o áudio, mais ela ia recuando –  “com música boa” – eu dava um passo pra frente e ela pra trás –  “uma galera bacana” – tinha uma escada atrás dela e eu começava a ficar preocupado – “todo mundo interagindo e curtindo pra caraleo o som!” – ufa.

“Pode crer, e… Ó! Novos Baianos rolando aí, cara!” –  mais um ponto pra casa – “Você gosta de Novos Baianos?”

“(movimentos verticais com a cabeça)”

“Pô,_____, eu to reparando que você tá inibida por eu estar gravando aqui, cara. Relaxa que da pra eu editar todo o texto depois. Essa parte nem vai sair. É tranquilo.”

“Tá.”

“Tá, mas to te sentindo desconfortável ainda. É o Gravador que provoca essa inibição, né?!”

“Éééé, muito.”

Mesmo com esse começo pouco animador do meu desempenho como repórter, não me deixei abalar e fiquei atento pra não perder a oportunidade de obter alguma informação relevante, ou até melhor, passar alguma informação relevante. E foi o que aconteceu. Vi um dos membros da cobertura do evento tirando fotos e fui trocar uma ideia.

“Pô, eae, já conseguiu dar uns flagras? Galera… se pegando no banheiro e tal? Como é que estão os flashs aí?

“Ah, galera se pegando no banheiro ainda não.”

“Tá cedo ainda pra isso?”

“ Tá cedo ainda, a galera ta começando a ficar mais alegrinha agora.”

“Mas acha que o ambiente condiz com esse tipo de atitude, cara? Acha mesmo que rola isso mais pro final da noite?”

“Pô, não sei, cara. Não sei qual vai ser a vontade dessa galera aí, não, haha.”

Humildemente dei um toque:

“Mas por via das dúvidas, fica de prontidão lá do lado do banheiro. Lá sempre rolam as melhores fotos.” – momento dica kodak.

“Ah, claro, com certeza. Vô começar a prestar mais a atenção nisso então!”

“Faz bem, faz bem… mas então, essa é sua primeira participação aqui pelo Sem Paredes?”

“Não, eu comecei a participar na pré calourada do DCE que teve lá na UF. Daí participei da pré, da calourada…”

“Sempre tirando fotos?”

“É, sempre mexendo com fotos e audiovisual.”

“Legal. E assim, resumidamente, o que que te fez entrar pro Sem Paredes, se envolver e tudo mais?”

“Cara, a galera, a vontade do pessoal de ter uma ideia e querer fazer isso dar certo, e a proposta que eles tem de cobertura, a visão que eles tem a respeito desse assunto é muito bacana!”

(…)

Indo em direção ao banheiro, uma cena chamou minha atenção e tive que parar pra observar. Ao som do Darandinos, duas garotas e um cara dançavam de uma forma contagiante. Ao mesmo tempo que formavam um circulo, dançavam em uma levada reagge, executando movimentos com claras influências de dança contemporânea experimental, e tudo isso meio que sambando. Foi algo realmente difícil de processar na hora. Mas muito bacana, claro.

ATENÇÂO:  Para a leitura do diálogo abaixo será necessário o domínio  de Espanhol/Castelhano.

“Cara, por favor, nomeia essa dança que vocês acabaram de fazer.”

“Elha faz.”

“(?)”

“El nome?”

“É! ‘A Fuga da Salamandra’, que você acha?”

“É… “A Fuga da Salamandra”…óóóóó!”

“Ah, gosto, né… mas vocês ensaiaram essa coreografia em casa ou não?” – eu estava impressionado de verdade.

“No, mas estoy aprendiendo com ella, estoy conociendo esta cultura.”

“Si, si… Tô reparando seu sotaque, você vêm de onde?”

“Colômbia.”

“Ô, que legal. Pero, que estay achiando de Ruiz de Fóra?”

“Ah, creo que tien giente muito manera.”

“Ahhh. E que estay achiando dieste chol especificamiente?”

“Chol?”

“É, show, dieste concierto.”

“Ah, concierto?”

“Si, si.”

“Ah, és um encontro cultural muito…dez. La propuesta és muy buena, porque és algo nuevo pra mi.”

“Si, si.”

“E instrumentalmente, musicalmente é muito bom.”

“E em los shows daqui, acha que las personas se compuertam diferentemiente de la colômbia?”

“Não, la música se parece a miesma coisa. Só que a la o som é mais rapidinho, é rock, é punk, é hardcore. Aqui é variado, é…”

“Na manha, no suingue?!”

“É, aqui tem muitos estilos, né.”

(…)

 “Entrevista pra quê?” – garota 2.

 Duas garotas estavam meio hesitantes em falar comigo, sendo que eu só tava querendo fazer uma hora do lado do palco esperando os caras do Darandinos, que tinham acabado de terminar o show, arrumar os equipamentos pra trocar uma ideia com eles.

 “Pra eu escrever sobre o show depois. Só quero saber o que vocês acharam do show, cara.”

“Cara, eu gostei muito. Eu nunca tinha ido num show deles.” – garota 1.

“É muito bom, é muito dançante, um som contagiante.” – garota 2.

“Mas vocês vieram aqui mais pro show do São do Mato?”

“Na verdade nós viemos mais pra comemorar o aniversário de uma amiga nossa, ela queria vir pra cá e a gente veio!” – garota 2.

“É!” – garota 1.

“Uhn, legal… E cadê ela agora?”

“Ela táá… ela foi no banheiro?” – garota 1

“(?)” – garota 2

“(!). Pô, mas o legal é que vocês vieram mais pra acompanhar uma amiga a acabaram curtindo o som, né?”

“É, eu até já cumprimentei os músicos.” – garota 2

“Ah, então rolou até uma tietagem de leve?!”

“Ahh, é legal, vai.” –  elas não entenderam muito bem o tom do meu comentário, ou só não gostaram mesmo, e preferiram não se manifestar mais sobre o assunto, mas tudo em um clima de paz.

 (…)

 Cheguei pra conversar com o percusionista do Darandinos.

 “Fala ae, cara, beleza? Tem como me dar um depoimento rápido aê?

“Opa, tem sim.”

“Então o que você achou da resposta do público,cara, o show de modo geral?

“Eu achei o astral bacana mesmo. A casa já tem o astral legal, então achei que teve tudo a ver, a gente com o São do Mato… achei tudo bacana, cara.”

“E a galera do São do Mato, vocês já conheciam, né? O som deles?”

“Sim, sim. A gente trocou ideia pra fazer esse evento já pensando nas duas bandas. Não foi uma coisa casual. Já tinha um bom tempo que estávamos querendo fazer um lance alternativo… e todo mundo pensa que alternativo tem que ser rock and roll, tem que ser podrera. Não! Pode ser uma locura/podrera/instrumental/regional e meio riponga, ir mais pelo lado experimental também, sabe.

“Lógico, concordo. Cara, agora eu vô ter que fazer a pergunta que todo mundo faz: porque o nome Darandinos? Ouvi uns boatos aí da galera que o nome é a fusão das duas maiores fontes de inspiração do pessoal da banda: o Tarantino e Doritos. Confere isso? – Quando isso saiu da minha boca eu meio que me arrependi achando que o cara ia me achar mó idiota por não pegar a ironia. Mas admito que foi algo bem idiota de se dizer de qualquer jeito.

“Hehe. Não, cara, é por causa do Guimarães Rosa.”

“Ah, pode crer. Mas eu não tô ligado, é um conto?”

“É um conto, Darandina.”

“Mas esse é um conto que representa bastante pra vocês e tal?”

“Pô, eu não sei muito bem a história. A Anna (vocalista) veio com o nome do conto e a gente acabou mudando pra Darandinos… mas eu também não sei o porque de Darandinos.”

“Pô…”

“É, eu não entendo muito bem, não.”

 (…)

Para não perder o costume, peguei o depoimento de um brother que fazia parte da organização do evento, brother esse que tem sua fama garantida, principalmente, por difundir formas primitivas de dança nas noites juizforanas.

“Falaê, cara, expectativas do show como é que tavam, como é que tá sendo agora?”

“Ou, total. Tô feliz demais, foi foda!”

“Foi foda? Mas tá rolando ainda, cara.”

“Tá foda, ahaha.”

“E que achou do clipe?”

“Pô, o clipe ficou bom demais. A letra da música também é muito bonita.”

“É bonita mesmo. Qual a foi a sua interpretação dela, que mensagem você acha que eles tavam a fim de passar?”

“Isso é sobre momentos pessoais, hahah. Essa música é muito pessoa.”

“É, mas eu falo assim…”

“Não, não. Me recuso a pontuar.” – então já tá estrelão?

“Pô, cara, mas o negócio é que o som vai soar diferente pra cada pessoa mesmo, o sentido é pessoal. Eu tô querendo saber sua opinião sobre a intenção da banda na hora de compor, saca?! Eu por exemplo achei a letra meio triste.”

“Não, mano, a música é mó happy na real, porque no final…”

“Rap?”

“HAPPY = FELIZ.”

“Ahhh, pode crer. Você é tipo a Luciana Gimenez, né, pensa em português e fala em inglês.”

“É, hehe.”

“Cara, mas a pergunta que realmente interessa: qual é a dança que você vai emplacar na noite de hoje?”

“Hoje tamo pensando em uma variação da Dança Sem Paredes e…”

Nesse momento um cara interrompe a conversa tendo que falar com meu entrevistado. Logicamente ele não fazia ideia da magnitude do assunto tratado naquele momento, e seus respectivos desdobramentos para a história da humanidade, caso contrário deixaria a frase ser completada.

“Pô, cara, que isso, tá maluco? Interrompendo um furo aqui, rapaz!”

Infelizmente não tive outra alternativa a não ser deixar meu entrevistado sair, deixando essa lacuna  assombrosa pairar sob o universo.

(…)

Já bem perto do fechamento do evento, com minha vontade de boa música saciada, faltava uma única coisa pra eu obter a paz de espírito total naquele final de noite. E por alguma motivo, uma iluminação talvez, pude conseguir isso ao trombar com o violonista do Darandinos.

“Cara, você vai ter que me tirar uma dúvida: no começo do solo da última música, aquelas primeiras 5 notas…era Led Zeppelin, né?

“Since I’ve Been Loving You!”

“Porra, sabia, cara!”

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