Cultura e Política

Primeiro texto da Cobertura Colaborativa da Calourada do DCE 2012 no ar! Veja como foi a palestra de abertura sobre “Literatura e Política” com Giovani Verazzani e acompanhe as images do Eco Performances Poéticas aqui, no flickr do Coletivo Sem Paredes.

Por Giovani Verazzani

A recepção dos calouros feita pela Faculdade de Letras não poderia deixar de lado uma de suas matérias primas fundamentais para a produção do conhecimento: a literatura. A noite da calourada de Letras iniciou-se com uma palestra significativa, pronunciada pelo professor e doutorando da casa Wagner Lacerda, com sua expansividade, contundência e bom humor de costume.

Política é um tema espinhoso em terras tupiniquins, principalmente quando revisitamos nosso passado mais recente e enumeramos os escândalos de corrupção, tanto do governo atual, quanto da oposição (quaisquer que sejam); não há como se empolgar com um tema que nos deixa desacreditados. Associar isso às nossas Belas Letras, portanto, pode ser abominável e indecente à vista de alguns puristas conservadores da linguagem.

Contudo, o tema dessa palestra é pertinente e se faz necessário, na medida em que defendemos que arte e cultura são instrumentos que possibilitam uma transformação social, política e intelectual dos sujeitos que a produzem e a consomem, tanto no âmbito subjetivo, individual, quanto no coletivo. E a literatura, dentro das atividades culturais como um todo, cumpre muito bem esse papel. Não é a toa que, em regimes totalitários e tirânicos, livros são queimados e destruídos, autores são perseguidos e, algumas vezes, até presos e torturados. Essa violência se explica em parte pelo caráter político da obra de arte, uma vez que ela é capaz de desestabilizar as bases ideológicas do poder. Mas o oposto também se faz verdadeiro e, como pode desestabilizá-las, ela pode servir a essas bases, como ocorreu no próprio nazifascismo.

Se analisarmos na história da literatura, até em Homero, séculos antes de Cristo, é possível relacionarmos literatura e política. Mas essa relação se torna mais aberta e explícita a partir da Revolução Russa e da ideologia que advém desse novo Estado: a arte só pode servir aos ideais revolucionários. Dessa maneira, a arte fica sujeita a condições específicas de produção, perdendo a característica fundamental que a torna uma obra de arte, a saber, seu próprio estatuto de funcionamento, livre, independente. O mesmo pode ser observado em alguns movimentos sociais durante o regime brasileiro de 64, como os CPC’s (Centro Popular de Cultura), que, por mais que as intenções fossem as melhores (sem ironia nenhuma) e houvesse revelado poetas e artistas fenomenais, acabavam por condicionar a arte a funções específicas, transformando-a em “panfleto”.

Entretanto, essa relação entre literatura e política pode ser mais contundente e expressiva, embora sutil, quando a pensamos dialeticamente; quando pensamos literatura e política andando juntas, e não separadas; quando o viés político da obra é inerente a ela mesma e não vem de fora, de forma a influenciá-la e ser por ela influenciado; quando o ato político brota / nasce do próprio ato de escrever; quando escrever se torna um ato político. E este ato pode ser estendido até às nossas mais triviais atividades cotidianas, como saudar um vizinho, não se restringindo exclusivamente à literatura.

Lembremo-nos de Platão ao dizer que o “homem é um animal político” e, para ilustrar tal afirmação, encerro com minha apreciação da atuação do professor Wagner Lacerda. A palestra perdeu seu estatuto de “palestra”, quando o professor desceu do púlpito e a transformou numa “aula”, com a participação aberta aos seus ouvintes, tornando-a num ambiente incontestavelmente democrático: um ato político. Há quem possa criticá-lo, dizendo que ele desrespeitou o frame “palestra” e a sua estrutura padrão, na qual só o palestrante fala e o público ouve. Desrespeitoso, talvez, mas absolutamente político.

, , , , , ,

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: