Grito Rock – Impressões

Vinil é Arte, Radiocafé, Graveola e o Lixo Polifônico, Silva Soul e Di Melo, Vandaluz. Juiz de Fora, Cultural.

“Cara, você vem de onde? O que te motivou a estar aqui?”

Logo após o Graveola tocar. A casa já estava bem movimentada e o público, no intervalo entre bandas, ainda em estado contemplativo pós-show. Fui falar com esse cara que tava se destacando na frente do palco, dançando na maior sintonia, todo felizão.

“Pô, uma entrevista quase pessoal, né?!”

“é…” – eu com quase medo de perder o depoimento do palhaço(de profissão, na real)/hippie/sanguibom – “mas relaxa que você será mantido no anonimato. A ideia é mais pegar as impressões do pessoal pra poder escrever algo em cima e tal…”

“Beleza. Mas olha, eu acho que o mais importante, cara, é que indiferente de trabalhar ou não, e de tá envolvido ou não com conceito de arte, o que eu mais vejo assim, o que mais me dá vontade de trabalhar e de transformar é justamente a geração atual que a gente vive, sabe?! Uma geração que é completamente acessível a vários tipos de cultura, seja teatro, cinema,música. Enfim, hoje se tem acesso à diversas coisas mesmo de uma cidade pequena, tá ligado?!.”

“Pode crer.”

“Agora falando mais de mim…” – o cara engatou uma quinta. Mas a conversa tava bacana – “tô numa busca constante de uma transformação comunitária. Não é algo pessoal…” – nessa hora eu não resisti e dei uma franzida de testa meio inquisidora – “err…quer dizer, é também pessoal…” – ahhhh bom – “mas pra mim o mais importante é eu conseguir atingir as pessoas e transformá-las. Meu trabalho é na rua, saca? Não é no palco. Rola um contato mais direto com o público. Meu trabalho é questionador, cara. Eu não preciso expor muito, não preciso falar pras pessoas entenderem…”

“Tá mais ligado aos gestos, né”

“Exatamente! Tá no gesto, tá no corpo…ou não.” – nessa mesma hora decidi dar uma focada na entrevista.

“Pô, muito legal seu trampo, cara. Legal mesmo. Mas hoje, quais bandas daqui você conhece e o que achou do último show que rolou agora?”

“Boa pergunta, hahaha”

“Gostou dessa, cara?”

“Ah, essa foi foda, né…” – o maluco teve alguns segundos de reflexão – “Mas, cara, eu acho assim, particularmente eu gosto muito de música brasileira e…”

“Ah, mas as bandas daqui você nem conhecia então?”

“Não, não, conhecia! Gosto muito do Graveola, já até conhecia o baterista. E no geral tá bem legal.”

“Certo. Agora vem cá, eu percebi que você é um cara com sensibilidade, um artista e tal…”

“Alternativo-cult eu falo”

“Pode ser. Isso, com feeling…”

“Cara, eu gosto dos clichês. Sô alternativo-cult.”

“Beleza então. Mas quero saber o que você tá achando do ambiente aqui.”

“Tô achando legal, cara! Eu viajei 3 horas e meia até aqui porque fiz questão de ver o Di Melo, saco? Paguei passagem, to pagando hotel, subi o morro aqui do…”

“Pô, mas valeu então, porque eu vi você trocando uma ideia com ele ali no canto quando ele tava dando um depoimento. Vi até que rolou um abraço entre vocês. Calor humano e tal.”

“Porra, pra caraleo!”

“E foi tudo registrado. Logo tá no youtube e já era, vai pro mundo.”

“E sinceramente, nas pessoas eu busco a energia. Pra mim foi uma honra encontrar com o Di Melo. De encontrar com ele e poder dar um abraço. É uma pessoa que tem cultura, um poeta.”

“É um cara que tá vivo, né”

“É, tá vivo, saco?”

“E todo safadão ainda, né”

“É, haha! Mas enfim, o ambiente tá bem legal, espaço legal. Uma galera mais diferente, que apoia a diversidade.”

“E achou que ficou faltando alguma coisa até agora no show?”

“Não, não faltou nada, cara. O lance é esse mesmo aí, incentivo a isso. Sabe, chama Hermeto Pascoal, chama Tom Zé, chama… Roberto Carlos” – puutz.

“Ôorra, hahaha”

“É, os grandes nomes. Chama o Graveola, Arnaldo Batista.”

“Pô, já que é assim, chama teu irmão lá também, o Ventania!” – e se vocês o tivessem visto pessoalmente iam dar razão a minha piadinha infame.

“Haha, pô, Ventania é do caraleo.”

“Do caraleo.”

Depois, em off, rolaram umas confissões de palhaço Al-Qaeda. O cara tava fissurado na ideia de dar uma tortada na cara do Pedro Bial, em rede nacional (??). E prometeu até que teria dedicatória após o ataque terrorista light. Fico na espera.

(…)

Transitava na parte externa da casa quando reparei em um pequeno aglomerado de pessoas. Logo vi que quem estava ao centro era ele, o mito, Di Melo. Colei lá pra tentar pegar um depoimento.

“…eu gosto do que faço. E por assim ser, e vou cada vez mais procurar melhor fazer…” – interrompe a fala e encara uma garota na sua frente – “Liiinda.” – e parte pra mais um de seus abraços marotos.

Eu espero o momento terminar e me aproximo.

“Fala aê, Di Melo, tudo bem? Tem como me dar um depoimento rápido, cara?”
“Claro.”
“Então me diz aí, o que a música representa para você, como forma de expressão?” – pô, falando com um figura desses, eu tinha que fazer esse tipo de pergunta pseudo-cult-clichezona. Uma hora ia ter que sair alguma pérola.

“Olha, eu acho que não existe nada mais expressivo dentre as artes do que a música em si. A música é o alimento da alma”

“Mas acha que pra todo mundo é assim?”

“Claro. Todo mundo curte música, e quem não curte é doente mental. Na boa. A música é tudo. Já penso um mundo só com som de metrancas? É muita doidera, tem que ter música – e as várias ramificações dela. Ou seja, se você só gostar de uma coisa, você tá ferrado”

“E você de alguma forma já se sentiu injustiçado, ou que a fama fez falta em sua vida?”

“Meu, eu faria tudo de novo. Sempre fiz tudo por PRAZER, e nunca fiz nada por FAZER. Sempre por prazer, porque aí você se dedica mais, você faz melhor. E eu continuaria tudo de novo. Não me sinto injustiçado, eu me injusticei. De uma certa forma, eu que me exclui. Eu que sai da história toda”

“A questão de fama também é bem ilusória, né, todo mundo acha que…”

“Tudo é muito ilusório, não é?! A vida é um sopro. Se você parar pra analisar, não tem nada com substancial. A partir do momento em que a única coisa que você sabe é que você veio e que você vai, nada é sustentável. É tudo muito sonho.”

“Outra coisa, cara, eu cheguei ver o curta sobre você, achei muito legal e…como é mesmo aquela história lá, que na décima sexta vai, é isso mesmo?” – pra quem não sabe do que se trata,esse foi um momento no filme em que ele, contado de suas sacações de sedução, afirma que na décima sexta mulher a cantada funcionava. Sem erro.

“Aaaahahahah. Rola, rola, rola.”

“Então o negócio é a persistência?”

“Não… mas, sabe o que acontece? De cada pessoa, você gosta por um detalhe. Dificilmente uma pessoa vai ter a persuasão de preencher a outra por inteiro. Então de cada pessoa se gosta por um detalhe. Eu por mim, gostaria de ser 1000 homens, namorar 1000 mulheres ao mesmo tempo. Cada uma é uma música, é um barato, é diferente, Nunca nada é igual.”

“Pra fechar, na sua opinião, qual maior músico de todos os tempo?” – só deixar claro que no momento tinha noção do quanto essa pergunta é tosca, não acredito nessa de “melhor músico”, mas estava mesmo é curioso pra ouvir a resposta.

“Olha, o maior músico…eu diria o maior compositor, Chico Buarque de Holanda. O Chico Buarque é foda. É difícil você achar uma coisa…o Chico é sem mácula nem culpa. Ela canta muito bem a mulher, a alma feminina. Olha, Brasil é brasil, o resto é conversa fiada. Aqui você tem de tudo e muito. O que você procurar você vai encontrar. Mas é difícil você precisar e dizer quem é o melhor músico do mundo…”

“Pode crer. Isso não existe.”

“É, porque quando você acha que sabe tudo, você é superado.”

Um tempo depois da entrevista pude conferir o cara no palco em ação, e realmente o tiozão é foda. Com uma puta presença de palco, muito carisma e swing, ele ganhou o público da casa com facilidade e fez a galera se envolver com intensidade no show.

Para não perder o costume, selecionou umas garotas da plateia e as pôs pra dançar em cima do palco. Esse foi um momento bem bacana, dava pra sentir a felicidade das pessoas fluindo.

E minha entrevistada seguinte ratificou tudo o que tava sentindo.

“Opa, dá licença, pode me dar um depoimento rapidinho?”

“Sobre o que?”

“Pô, me fala o que achou do show que terminou agora.”

“O show foi incrível, a participação, o envolvimento…sabe, esse amor que a galera tem, foi um momento muito bonito, ver todo mundo se divertindo, feliz.”

“E o que você acha do Di Melo?”

“Ah…como assim?”

(como assim “como assim”?) “Sei lá, ele como mente, corpo, o pacote todo.”

“Ahhh, ele é um cara cativante. Você olha pra ele e dá vontade de abraçar, morder.” – óóuun.

“Hmm, então ele é um fofo, né?!” “É!” – 🙂

(…)

Uma hora um brother que fazia parte da organização do evento chegou perto e comentei com ele:

“Pô, cara, você reparo que no começo o pessoal tava meio tímido, poca gente lá dentro, e de uma hora pra outra broto uma galera, né?! Aconteceu muito de repente”

“É. A gente tava até tentando emplacar uma coreografia do Sem Paredes na hora”

“Ahn? Me explica isso aê direito”

“É assim, ó” – e ele juntou as mãos fazendo um movimento ondular frenético, com uma ginga pouco usual. Na hora fiquei pensando quais eram as chances de uma coreografia dessas emplacar…mas se o cara falou, boto fé. Fiz minha parte em divulgar aqui.

(…)

Mais pro final da noite, abordei uma colega da Oficina de Midialivrismo, que tava fazendo a cobertura colaborativa junto com a equipe toda espalhada.

“Pô, me fala as suas impressões do Grito.”

“Cara, era o que faltava em Juiz de Fora, música independente, bandas com um som e letras fortes..é isso.”

“E qual o destaque da noite”

“Silva soul”

“Silva soul?”

“Com certeza, os caras mandam muito bem. E destaco a oficina também, que fez eu mexer com algo que não tem nada a ver com que eu faço. Nunca tinha pego em câmera nenhuma”

“Pô, que legal.O que você faz?”

“Faço Psicologia. Totalmente fora de tudo isso que tá rolando, e tá sendo uma experiência única, conhecimento adquirido pro resto da vida. Ainda mais com uma galera que é foda, sempre trocando ideias… um ambiente super positivo, onde não rola aquela hierarquia, onde uns sabem mais e outros menos, todo mundo no mesmo nível, se ajudando, compartilhando e somando.”

E na saída a sensação que levei foi parecida com essa, de que algo grande havia rolado naquela noite, mas principalmente pelo fato de ser algo feito em conjunto, movido pelo tesão, pela vontade genuína de ver algo maior ser construído e fazer parte desse processo de aprendizado e evolução.

Por Lucas Codonho – participante da Oficina de Midialivrismo

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  1. #1 por laura em 03/03/2012 - 16:14

    muito bom!

  2. #2 por roberto de melo santos em 04/03/2012 - 22:55

    fui vi e gostei, foi intenso, foi imenso, houve consenço: adorei tudo…o som
    do( silva soul.) me envolveu me impressionou como um todo, daí foi prato
    cheio, juntou á fome com a vontade de comer,êis…a junção do útero ao
    agradável; valeu como experiência,sobrou mais que competência.Quero
    doravante fazer algumas coisas com essa banda,sou todo grato por tudo
    o meu abraço coracional à todos…O espaço Cultural é fantástico é casa
    de primeíríssimo mundo,o local em si já é um acontecimento,fui muito feliz
    em conhecer todos,foram muito simpáticos,sensíveis,prestativos,atenciosos
    prestimosos e colaborativos…abraços do Di Melo coracionalmente

  3. #3 por Cristiana Magalhães em 09/07/2012 - 15:42

    “Olha, Brasil é brasil, o resto é conversa fiada.”

    Muito bacana a entrevista, bem descontraída. O talento desse pessoal é impar.

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