SEM PAREDES NA TRIBUNA DE MINAS

CADERNO DOIS – TRIBUNA DE MINAS – DOMINGO, 28/11/2010.

CAFÉ COM GOSTO DE PORVIR

Raphaela Ramos
Repórter

 

Eles chegaram, tomaram seus lugares à mesa e logo pediram café. Estavam dispostos a conversar por horas e horas. Aos poucos, o debate sobre música autoral em Juiz de Fora ganhou ares de porvir. Mais café. Parecia surgir ali, naquele espaço inundado de CDs e DVDs, o combustível capaz de fazer a engrenagem rodar. Tal metáfora, aliás, foi sugerida pelos próprios participantes do encontro organizado pela Tribuna na Planet Music. No próximo dia 9, o coletivo Sem Paredes, que compõe o Circuito Fora do Eixo, promove por aqui sua primeira noite Fora do Eixo. O evento contará com as bandas Vandaluz, de Patos de Minas, e Martiataka, juiz-forana, ambas ligadas à produção autoral. A proposta fez escapar o questionamento: o público está disposto a abandonar o cover?

O compositor e violonista Lucas Soares, integrante da banda Darandinos e do duo SoaresCastro, afirma sem titubear: “a criação local está cada vez maior e com qualidade”. De acordo com ele, que assina canções incluídas em discos de diversos artistas, o “Encontro de compositores” contribuiu para que a atividade ganhasse viço por aqui. Realizado desde 2007, o projeto possibilita a troca de experiência e abre espaço para iniciantes. “Comecei a compor lá”, conta o baixista e membro do Conselho Municipal de Cultura (Concult) Fred Fonseca. Para ele, a ideia aprimorou a produção autoral, além de reunir aqueles que já vinham trabalhando de forma solitária. O compositor Arnaldo Huff, um dos fundadores da história, diz o mesmo pelo telefone: “o encontro nasceu da vontade de compartilhamento”.

Questão de sobrevivência
Por falar em agrupamentos artísticos, essa é a direção apontada por Lucas como potencializadora do novo. Segundo o músico, embora existam incentivos para a criação, ainda faltam possibilidades para o escoamento. “Temos a Lei Murilo Mendes que, apesar da necessidade de ajustes, viabiliza muito coisa. Mas não temos onde tocar.” O guitarrista e engenheiro de gravação Ricardo Rezende, sócio do Nave Estúdio, assevera que na década de 1980 havia mais casas de shows dispostas a se arriscar. Conforme complementa ele, a maior parte dos palcos locais elege a mercadoria e dispensa a arte. “O trabalho autoral é uma questão de sobrevivência da música brasileira”, contrapõe.

A partir disso, Lucas sugere táticas de guerrilha. “Precisamos andar pelas beiradas. O esquema dos bares já está viciado, não dá para começar por ele.” Fred Fonseca concorda, informando atuar como conselheiro administrativo da Cooperativa da Música de Minas (Comum) e da Federação das Cooperativas de Música do Brasil. “Núcleos fortes podem resgatar os espectadores. E, então, os empresários terão que se adequar. O que não vale é depender de assistencialismo.”

Ao contrário do que muitos pensam, porém, na opinião do baixista, há na cidade uma plateia disposta a descobrir novidades. O instrumentista Guto Gomes, integrante do Sem Paredes, acredita que, quando há espaço, as pessoas aparecem. De acordo com ele, muitos ouvintes estão sedentos por um trabalho autoral ou, pelo menos, com identidade própria. “É claro que essa fatia pode ser ampliada”, diz, pelo telefone.

Peões da música
Na visão de Fred Fonseca, o momento da virada está próximo. Ainda que muitas bandas se retirem do mercado local à procura de um um lugar ao sol, outras tantas permanecem confiantes. “Muitos comentam que a nossa classe artística é a mais organizada da cidade”, menciona, citando o Fórum da Música realizado semanalmente. De lá, partiram variadas propostas, entre elas, a Mostra da História da Música de Juiz de Fora, uma série de debates com a primeira edição marcada para a próxima quinta, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

Lucas lança na discussão o próprio exemplo. Apesar de estar com a agenda lotada de shows em outras localidades, permanece divulgando seus projetos por estas bandas. “O problema é que o músico daqui não é valorizado aqui.” De acordo com ele, quem se dedica somente ao processo autoral não vive de arte em Juiz de Fora. “É preciso escoar de outra forma. Agora, se o cara fizer cover com violão e voz ou tocar forró e sertanejo, a coisa é diferente.” Guto Gomes completa: “as duas atuações podem conviver, mas se existe um viés autoral, precisa ser mostrado”.

Por outro lado, conforme assegura Ricardo Rezende, a linha de frente de seu estúdio é a feitura de CDs artísticos, em sua maioria, juiz-foranos. “Isso significa que temos perspectiva.” O que não falta também é talento. Segundo Ricardo, a cidade acolhe bons profissionais para todas as etapas da cadeia de produção. Com o movimento musical se fortalecendo, justifica ele, os profissionais foram estudar. Além disso, como arremata Fred, o artista contemporâneo é aquele que se arrisca em todas as funções. “Somos peões da música.”

 

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