Cidade dos Sonhos

Por Juliana Fausto

Ao assistir a Cidade dos Sonhos, tem-se a impressão de que tudo ali já foi visto antes, no cinema do próprio David Lynch; referências a Twin Peaks, Veludo Azul, Coração Selvagem e Estrada Perdida aparecem a todo momento e com uma tal profusão que, à primeira vista, pode-se pensar que o cineasta não fez senão repetir-se, reciclar seus próprios temas sem sair do lugar. Mas uma segunda olhada pode nos mostrar que Lynch sabia bem o que estava a fazer e que, ainda que seu ponto de partida seja o diálogo com a sua própria obra, que esse diálogo não é nunca estático.

Cidade dos Sonhos começa com um acidente de carro que salva uma mulher (Laura Elena Harring) de ser assassinada; com amnésia total, ela vaga por entre casas até resolver se alojar na residência de uma senhora que parte naquele momento para viajar. Acontece que a tal senhora havia emprestado seu apartamento para uma sobrinha vinda do interior para tentar a sorte como atriz ali, em Hollywood. Essa sobrinha, Betty (Naomi Watts), exemplo de boa moça, encontra a acidentada e, ao saber de sua história – isto é, daquilo que a outra se recorda, de que esteve envolvida em uma batida de carros – resolve ajudá-la a descobrir a sua verdadeira identidade.

Uma cena antes, aparentemente desconectada do resto da ação, dá já o tom do filme: dois homens conversam em uma coffee shop; o primeiro narra ao segundo um sonho horrível que teve. Ali, naquela mesma lanchonete, ele via o amigo nervosíssimo a fitar o horizonte e acabava por se apavorar ele mesmo, ao descobrir a razão do sofrimento do outro: um homem horrível atrás de uma parede. Como que para se purgar de tal pesadelo, ele pede ao amigo que o acompanhe até essa parede, que fica do lado de fora da coffee shop; o amigo vai. Eles seguem lentamente até que surge, por detrás do muro, um rosto horrendo, que olha o homem do sonho. Esse olhar é suficiente para que ele caia no chão, terrificado. Alguns momentos antes, dizia ao amigo: “Espero não ver nunca aquela face fora do sonho”. Cidade dos Sonhos é um sonho. E um pesadelo.

O filme como que se divide em duas partes – à maneira de Estrada Perdida: na primeira, a história da amnésica; na segunda, uma espécie de variação da primeira história, com as personagens em outros papéis. Em ambas, trata-se de um sonho. Mas não um sonho do tipo que pode ser explicado pela psicologia. Como sempre, em Lynch, os signos não fazem referência nunca a algo externo, mas existem em si, como signos, fundamentalmente; o sonho lynchiano não revela nenhum desejo oculto de personagem, não se baseia em experiência psicológica ou remete a algo fora de si mesmo.

Para realizar esse tipo de sonho, neste filme, o cineasta se vale do superlativo: atuações exageradas e cores fortes dão o tom de seu sonho/pesadelo, que não é em relação com a realidade, mas funciona como um certo tipo de percepção. O seu exagero não faz de Mulholland Drive, porém, uma caricatura risível; antes, ele busca seriedade em cada clichê que lança – e são muitos, sendo esse mesmo o motivo pelo qual se pensa que o filme é somente uma repetição vazia do que o cineasta realizou até aqui, quando, em verdade, o diálogo que se trava é com todo um sentido de cinema – desde o momento em que decide se utilizar deles no sentido fundante que os transformou a cada um em clichês.
Mas aqui, ao contrário de Estrada Perdida – em que primeira e segunda parte, por se localizarem em uma mesma dimensão, não faziam nenhum sentido juntas – é a segunda parte que, alterando totalmente o sentido da primeira, põe em cena o destino do qual não se pode fugir, tema tão caro a Lynch.

A segunda parte é o pesadelo da primeira e, ao mesmo tempo, a primeira parte, a fantasia da segunda. Mas nas duas há um ponto comum: o amor que Betty/Diane sente por Rita/Camilla, a acidentada da primeira parte. Ou seja, estamos sempre em território lynchiano, o terreno da paixão, terreno em que, não importa o que se faça, há que se sempre cumprir seu destino. A paixão aqui, leva até aquilo que os franceses chamam de effondrement, um tipo de afundamento, de desmoronamento. É o duplo desmoronamento de Betty/Diane que presenciamos.

Em determinado momento do filme, as duas amantes vão assistir a um espetáculo; nele, o mestre de cerimônias fala: “Não há orquestra. Não há orquestra. Está tudo gravado”. Isso resume a intenção do diretor porque diz: está tudo gravado, tudo determinado já de antemão. Não importa o que se faça, há de se eternamente chegar ao mesmo lugar. Nesse sentido, o que importa é muito menos a conseqüência da ação do que ela, como percepção e experiência, em si. E se esse é o tema que vem perpassando todo trabalho de Lynch, ele aqui atinge, talvez, seu ponto mais alto: porque cada elemento do seu Cidade dos Sonhos converge univocamente para um lugar, o cinema.

QUARTA- 24/11 – 19H NO ANFITEATRO JOÃO CARRIÇO

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