Coração Selvagem

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano de 1990, o road movie “Coração Selvagem” (Wild at Heart, EUA, 1990) é reconhecido como um dos filmes mais acessíveis da carreira de David Lynch (nesse aspecto, talvez seja superado apenas por “O Homem Elefante”, de 1980). Na época do lançamento original nos cinemas, os fãs mais radicais da obra pregressa de Lynch comentavam que o filme poderia marcar a rendição do diretor, então considerado um dos mais herméticos em atividade nos EUA, ao cinema mais comercial. Para os mais incrédulos, o cineasta provaria depois, com longas-metragens intrincados e delirantes como “Cidade dos Sonhos” (2001), que não havia se vendido ou coisa parecida.
Na verdade, não é necessário conferir filmes mais recentes para comprovar que o olhar bizarro e a sensibilidade pós-moderna do cineasta continuam intactos. Basta uma olhada mais atenta ao próprio longa de 1990 para confirmar isto. Violento, visceral e repleto de imagens oníricas, com textura de pesadelo, “Coração Selvagem” concentra todas as obsessões de David Lynch em uma galeria inesquecível de personagens carregados de símbolos da cultura pop: o casaco de pele de cobra de Sailor Ripley (Nicolas Cage), o chiclete eterno de Lula (Laura Dern), os dentes podres de Bobby Peru (Willem Dafoe), os cabelos loiros desgrenhados das gêmeas más vestidas de preto (Grace Zabriskie e Isabella Rossellini), o assassino negro da moeda de prata que usa terno púrpura (Calvin Lockhart).

Ligando os personagens, outra série interminável de motivos caros ao cineasta, como citações a Elvis Presley e Marilyn Monroe, além de referências múltiplas ao clássico infanto-juvenil “O Mágico de Oz” (1939). A trilha sonora, com trechos incidentais compostos pelo próprio Lynch, resume com perfeição a qualidade pós-moderna do trabalho, pois mistura indistintamente estilos aparentemente inconciliáveis, como rockabilly, ópera, trechos clássicos orquestrados e heavy metal brutal. Apesar de parecer uma salada indigesta, a fusão de todos esses elementos do imaginário pop se revela coesa e bem amarrada, graças ao talento de narrador de David Lynch, que constrói um road movie violento, sensual e repleto de humor negro.A história acompanha uma viagem de carro empreendida por um jovem casal. Sailor (Cage) e Lula (Dern) não estão em busca de algo em particular. Apenas fogem da mãe dela, Marietta (Diane Ladd, mãe verdadeira de Laura Dern), uma perua histérica que tem a mania de se vestir como atrizes famosas do passado. Na estrada para o Texas, eles são perseguidos por um detetive (Harry Dean Stanton) e um matador (J.E. Freeman), e encontram personagens aterrorizantes, como o assaltante Bobby Peru (Willem Dafoe) e a figura sinistra de Juana Durango (Grace Zabriskie). A imagem desta última, com o rosto vincado de rugas, o cabelo loiro mal pintado e a bengala de metal, é aparição garantida nos piores pesadelos do espectador desavisado. Material de provocar arrepios.

Divertindo-se a valer, o elenco numeroso oferece performances exageradas e deliciosas. Não foram poucos os atores que desenvolveram neste filme maneirismos que os acompanhariam para sempre, caso tanto de Cage quanto de Dern. Mas o maior destaque vai provavelmente para Willem Dafoe, que protagoniza a seqüência mais espetacular, uma visitinha ao quarto imundo do hotel vagabundo do casal, quando encontra Lula sozinha e enjoada. Trata-se de um exemplo perfeito de como uma montagem adequada pode alterar suavemente a atmosfera de uma mesma cena, várias vezes, indo do bem-humorado ao aterrorizante, e daí ao sensual, e ainda assim permanecer completamente acreditável. “Coração Selvagem” não é para todo mundo, mas admiradores do cinema impressionista de David Lynch, e fãs de filmes absurdos de modo geral, vão amar.

QUARTA – 10/10/10 – 19H NA VIDEOTECA JOÃO CARRIÇO

 


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