O Homem Elefante

HOJE  – 19hrs na Videoteca João Carriço

Anne Bancroft adorava a peça teatral “O Homem elefante”. Comentou com seu marido Mel Brooks e esse se quedou à realidade: a história poderia dar um bom filme. Resolveu produzir o filme. Convidou para a direção o então novato David Lynch. O diretor ao invés de trabalhar em um projeto de simples transposição da peça para as telas resolveu ousar: Optou por ir mais fundo e se inspirou na literatura médica para retratar a vida de John Merrick, que vivera na Inglaterra vitoriana e que possuía 90% de seu corpo tomado por uma doença incurável, mesmo nos dias de hoje: supostamente neurofibratomose múltipla. O filme acompanha o que teria sido sua vida, a partir de quando é retirado de um circo de atrações bizarras e é levado ao hospital pelo Doutor Frederick Trevers, quando ele já tinha 21 anos (ele viveu até os 27 anos). Tal história, nas mãos de uma pessoa mais inábil, transformar-se-ia em um dramalhão. Lynch opta por fazer algo mais profundo. Transforma a história desse ser em uma fantástica fábula entre o feio e o belo, procurando a partir disso refletir sobre o sentido da existência humana. Para isso contribui muito a excelente fotografia em preto e branco.

O John Merrick que surge nas telas através da magnífica interpretação de John Hurt é um ser dotado de rara inteligência e sensibilidade. Ela não será percebida de imediato, pois de início, até para amainar a consciência dos que o conhecem, todos pensam tratar-se de um imbecilizado. E ele prefere assim parecer a fim de que a truculência idiota não o martirize ainda mais. Quando o médico percebe que dentro daquele corpo existe um ser extremamente sensível, a situação muda de figura: Ele procura amenizar o sofrimento daquele seu companheiro de jornada. E é essa idéia de solidariedade, que contrasta com a sociedade vitoriana daquela época, que permeia o filme. Sociedade onde as máquinas industriais e as fumaças, barulhos e esgotos dela oriundas parecem querer tomar o lugar da espécie humana ou moldá-la à sua imagem e semelhança. Quando a câmera abre para o mundo das ruas sentimo-nos sufocados. Tudo é cinza, não existe espaço para a natureza. Dessa forma parece que não é só Merrick que está acorrentado ao disforme, todos estão.

O diretor nos presenteia com uma narrativa enxuta, recheada de seqüências de tirar o fôlego das quais podemos citar pelo menos três: Quando seus companheiros de circo e feira (corcundas, anões, gigantes e outros seres dotados de deformidades) se unem e o conduzem para a liberdade, permitindo que volte para a Inglaterra. Outra, essa de tirar o fôlego, quando é cercado na estação ferroviária, como se fosse uma besta e ele brada afirmando sua humanidade, deixando estáticos os que o cercavam. E também aquela, em que no quarto ele se transforma em fantoche da ignorância humana, servindo de atração para bêbados e prostitutas.

O filme foi premiado no festival de cinema fantástico de Biarritz e também laureado com o grande prêmio em Moscou. Talvez aí se entenda o motivo pelo qual não arrebatou nenhum oscar: É duro para um americano aceitar que soviéticos tenham premiado algo antes da academia (vivíamos ainda a época da Guerra Fria). O fato da premiação em Moscou comprova apenas ser impossível não premiar um filme perfeito. A academia americana não entendeu o recado: Concorrendo a oito oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição) o filme não levou nenhum. O mais cruel foi a perda do de melhor ator (ganhou Robert De Niro, também genial pelo “O Touro indomável”, mas inferior à perfomance de Hurt). Filme perde muito quando visto em tela pequena ou dublado. A interpretação de Hurt é sutil: fundamenta-se sobretudo no gestual e na voz, visto estar o tempo todo coberto por grossa maquiagem (não havia Oscar de maquiagem naquela ocasião). Os que dividem a tela com ele também estão brilhantes, destacando-se Anne Bancroft, que interpreta uma atriz, que parece ser a única dotada da capacidade de compreender Merrick. O final do filme, que ocorre logo após ele conseguir concluir a construção de uma maquete de uma catedral, da qual ele só via uma parte pela janela de seu quarto, usando de sua imaginação para concluir o resto, remete para uma visão oriental da existência. E retoma o elo com a cena inicial, onde uma mulher grávida se debate assustada, com o estouro de uma manada de elefantes. Um dos filmes chave da década de oitenta.

http://www.youtube.com/watch?v=v-j4CkV2rdM

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